quinta-feira, 5 de novembro de 2009

PNEU FURADO, crônica de Luís Fernando Veríssimo

   O carro estava encostado no meio-fio, com um pneu furado. De pé ao lado do carro, olhando desconsoladamente para o pneu, uma moça muito bonitinha. Tão bonitinha que atrás parou outro carro e dele desceu um homem dizendo: "Pode deixar". Ele trocaria o pneu.
   _Você tem macaco? - perguntou o homem.
   _Não - respondeu a moça.
   _Tudo bem, eu tenho - disse o homem. _Você tem estepe?
   _Não - disse a moça.
   _Vamos usar o meu - disse o homem.
   E pôs-se a trabalhar, trocando o pneu, sob o olhar da moça. Terminou no momento em que chegava o ônibus que a   moça estava esperando. Ele ficou ali, suando, de boca aberta, vendo o ônibus se afastar. Dali a pouco chegou o dono do carro.
   _Puxa, você trocou o pneu pra mim. Muito obrigado.
  _É. Eu...Eu não posso ver pneu furado.Tenho que trocar.
   _Coisa estranha
   _É uma compulsão. Sei lá.

(Fonte: Pai não entende nada. Porto Alegre:L&PM,1990)

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